terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Fidel: já vai tarde e, ao mesmo tempo, deixa saudade

Falo de Fidel só agora propositadamente, na esperança de deixar algum tempo passar e perceber se alguma coisa nova se apresenta.
Pensava em alguma transição em Cuba. Como toda transição, pensava em incerteza e temor de que um regime fechado pudesse se transformar num regime mais fechado ainda. Até agora nada.
Esse nada pode ser uma primeira etapa de um processo de mudança, mas pode significar algo mais triste: simplesmente conformismo da população local com o estado de coisas vigente. Nada importaria, tudo permaneceria o mesmo.
Uma segunda opção pode ser considerada, a de que a simples ausência física de Fidel inicie uma mudança, mesmo que de longa duração, e aí estaríamos apenas no começo de tal mudança e seus efeitos não se fariam perceber no curso de vida desta geração.
De uma forma ou de outra, Fidel já vai tarde. Uma revolução brilhante desmoronou numa ditadura canalha e mentirosa.
Paradoxalmente, Fidel também deixa saudade de um tempo em que havia um paradigma a competir com o capitalismo e alguém com coragem para dizer "não" aos Estados Unidos.
A vida prossegue, vamos ver como o mundo se adapta ao vazio deixado por Fidel.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Globalização, China, Rússia

Se bem é verdade que não se pode falar em globalização sem incluir os Estados Unidos, igualmente não se pode ignorar os dois gigantes da Eurásia, Rússia e China.
Ambos países estão aferrados a dois elementos: à soberania westphaliana com seu correlato de realismo político, por um lado, e às benesses de mercados abertos a seus produtos, por outro lado.
Esse par é antinômico por excelência. Não se pode celebrar a excelência do progresso chinês nas olimpíadas e esquecer, em nome do esporte, os gravíssimos problemas que envolvem o regime chinês: repressão política severa, bloqueio ao indivíduo, cinismo comercial, violação aos direitos humanos, entre tantos outros.
Na Rússia temos a mão pesada para resolver problemas na Chechênia, o oportunismo da guerra contra o terrorismo, a repressão política, as ameaças nucleares à Ucrânia, etc e etc.
A globalização trava nesses países. Sabemos que a globalização não é boa pra todo mundo, mas também sabemos que é um movimento mundial até o momento irresistível.
Ou melhor, pode se resistir à globalização, mas com os métodos russos e chineses. Isso não é bom.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Memória e escândalos

A memória mantém o passado vivo, passado que é parte de nossas vidas assim como o ar que respiramos. Sociedade sem memória é como um corpo asfixiado.
Alguns dizem (com uma certa dose de razão) que escândalos no Brasil duram pouco tempo na memória porque logo são substituídos por um escândalo novo e mais bombástico, além de sempre recebermos nossa dose diária de alienação: as novelas, os neo-bobos do BBB, o futebol de quarta e domingo, os cuidados do dia-a-dia, o vício em dinheiro, o soft-porn, o hard-porn, a vida das celebridades e por aí vai.
Admirável mundo novo ou, como está na música, brave new world.
...
Esse é nosso recibo de idiotia.
...
Pra quem quer se alimentar de novo escândalo, veja o blog do Josias de Souza: http://josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/index.html. Lá há descrição interessante dos gastos da cozinha da Presidência da República.
Vamos ver se as excêntricidades gastronômicas do Palácio serão esquecidas como a morte de Jango e PC Farias, o massacre do Carandiru, o caixa 2 das campanhas eleitorais e tantos outros... é só escolher.
...
É duro botar o nariz acima do mar coprológico.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Memória e ação

Há quem diga que pode ser um problema de regimes de coalizão, exigente de acordos com facções unidas por interesses fisiológicos. Outros dizem que é problema da democracia, exigente de discussão e debate livre, o que atrasaria todas as decisões e tornaria o regime naturalmente moroso, lento e frustrante. Aí poderia ser entendida a demora, os longos prazos e trâmites a que são submetidos assuntos polêmicos de nossa memória: demora-se tanto na expectativa (geralmente correta) de que as coisas sejam esquecidas e arquivadas. O caso mais recente é a investigação (que ainda não começou) sobre a morte de Jango.
Eu, por outro lado, penso que é um problema de hesitação, falta de decisão política e medo. Há uma recusa sistemática de escamotear nossa memória. Em nome de não-sei-o-quê do futuro nosso passado é falsificado, vilipendiado e ridicularizado.
Quem somos nós, brasileiros, e o que somos capazes de fazer ou tolerar (para o bem e para o mal)?
Não sabemos, não sabemos.
...
Em tempo: batedores de carteira e ladrões de galinha vão para os abomináveis programas de TV-mundo-cão: lá são achincalhados ad nausea. Ladrões do dinheiro público (que seria usado para diminuir filas do INSS, pagar aposentadorias decentes, salvar vidas etc e etc) apresentam habeas corpus preventivo e são tratados com respeito em horário nobre.
Há algo de podre no reino da Dinamarca...