domingo, 27 de janeiro de 2008

Memória, memória, memória

Mais uma vez a Folha de São Paulo (27/01) apresenta reportagens sobre nosso passado autoritário, desta feita com a entrevista de um ex-agente uruguaio que diz ter sido morto o ex-presidente João Goulart por envenenamento e com autorização do governo brasileiro de então (ordem do ex-presidente Geisel, retransmitida pelo ex-delegado Fleury).
Não sabemos se tal declaração é verdadeira ou falsa, condizente com os fatos ou exagerada, realista ou exagerada. Não sabemos nada... esse é o grande problema.
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Não se pode fazer de conta que o passado não ocorreu, porque ele simplesmente vem bater à nossa porta. É muito constrangedor ler essas notícias e não verificar nenhuma ação oficial de resgate da memória e de mergulho nos documentos do passado.
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As coisas acontecem e nada é feito. As declarações são feitas e ninguém responde, ninguém investiga. E o futuro de tabula rasa continua impávido.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Poliarquia, memória, futuro

Uma das exigências de uma poliarquia é o livre acesso às informações (no modelo de Dahl, a preocupação é com o momento eleitoral, mas aqui refiro-me ao dia-a-dia), pois sem informações nosso grau de racionalidade cai e, conseqüentemente, nossas decisões pioram de qualidade.
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Viver a memória não é o que se costuma dizer sordidamente: "quem vive de passado é museu". Viver a memória é permitir que o passado continue vivo, é evitar o que Hannah Arendt chama de dupla morte: a morte física em si e o insulto do esquecimento (que faz com que aqueles que viveram repentinamente deixem de ter existido, vivido, sofrido e realizado sonhos nesta vida).
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O futuro é o devir, o imprevisível, o novo.
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É comum ouvirmos e percebermos em nosso país que, em nome da poliarquia, devemos esquecer deliberadamente do passado em nome de um futuro novo, evitar a memória para evitar ressentimentos e revanches.
Quem propõe essa ação sabe muito bem que o resultado não é um futuro novo e limpo, mas uma tabula rasa de idiotas prontos a aceitar qualquer coisa em troca de um prato de lentilhas.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Sempre exercitando a memória

Depois da overdose de patriotismo dos Jogos PanAmericanos, restam-nos as cinzas do esquecimento.
Não se sabe ao certo quanto foi gasto nas obras, não se explica porque as instalações estão hoje vazias, numa reprise do mico de Atenas (bem já se disse que a História se repete uma vez como farsa, outra como tragédia...), nem se sabe porque R$36.000,00 mensais são suficientes para pagar o aluguel do Engenhão (Vide Folha de São Paulo de hoje, 20/01).
É preciso sempre exercitar a memória.
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O liberalismo econômico... o bom e velho liberalismo econômico. Quando tudo está bem o Estado é o pior dos males, deseja-se o fim da intervenção estatal na economia, fim dos programas sociais e liberdade absoluta de iniciativa. Quando tudo está mal, que o Estado venha em socorro, com o dinheiro dos pobres que nunca chegarão perto do maná do mercado, é claro... (Vide igualmente Folha de São Paulo de hoje, 20/01). Dinheiro público para ajudar os ricos é modernidade, dinheiro público para ajudar os pobres é atraso e populismo.
Esse cinismo é insuportável.
É preciso sempre exercitar a memória.
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quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Memória: o Condor é mais uma necessidade, entre outras

A memória é tão rica e diversa quanto o são os seres humanos. Isso, porém, não quer dizer que ela possa ser falsificada. Em nosso país temos um longo trabalho pela frente: trabalho de produzir memória honesta e diversa, denunciar a memória oficial e ideológica, recusar a Verdade (essa coisa absoluta, inquestionável e INEXISTENTE).
Porque se estudam as revoltas do período regencial? São revoltas ou revoluções? Revolta é coisa de gente aventureira e insana, revolução é coisa do povo em favor da liberdade. Porque o Brasil não tem revoluções?
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1930 é conhecido como a "Revolução de 30". Afinal, é revolução ou guerra civil? Forças legalistas e forças insurgentes em conflito configuram guerra civil. Onde está a Guerra Civil de 1930?
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Canudos foi uma ameaça à República? Canudos foi um exemplo de milenarismo? Canudos foi mais um caso do desencanto das populações pobres do Brasil? Canudos certamente foi um massacre e uma desonra para todos os envolvidos.
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1964 foi revolução? Não houve povo, não houve mudança sócio-política, não houve mudança da estrutura econômica, foi um ato executado por membros do próprio stablishment... Isso não é revolução, é golpe de Estado.
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Porque o Carandiru foi demolido? Simplesmente foi destruída a memória do massacre de 111 presidiários. Criminosos? Sim, por isso estavam presos. Mereciam seu destino? Francamente... isso é nazismo.
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Gostamos muito de pensar no futuro, e isso é um estelionato cultural e social incentivado pelas nossas piores elites. Talvez por isso não tenhamos memória e não saibamos quem somos.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Condor e Memória

Convido a todos que leiam o artigo (que me foi sugerido pelo Márcio) do Coronel Jarbas Passarinho, disponível em http://www.ternuma.com.br/jpassarinho080.htm.
Há pouquíssima distância entre os eventos de 1964-1985, é fato. Talvez por isso o debate sobre o tema ainda esteja muito carregado ideologicamente. Não há evidências históricas de que tenha ocorrido guerra revolucionária no Brasil, ao contrário do que diz o autor acima (temos que esperar pelo resultado das pesquisas feitas nos arquivos da ditadura até agora disponibilizados).
Por outro lado, não acho razoável crer que o regime cubano seja melhor que o nosso.
O problema realmente sensível, salvo melhor juízo, não é saber da insurreição ou contra-insurreição, vitimizar ou glorificar os mortos (de um lado ou de outro): o principal é exercer o direito à memória e defender a liberdade do presente de interpretar o passado. Não há memória única... isso não existe em nenhuma instância da percepção humana.
Uma discussão como a que parece iniciar-se, carregada de adjetivação e má vontade, apenas pretende sufocar o direito do outro se expressar.
Investiguemos, resgatemos nossa memória.
Nós somos aquilo de que nos lembramos, na plenitude de nossa diversidade.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Mais do Condor e de nossa memória

Mais revelações e resultado de pesquisas surgem sobre a colaboração entre os regimes autoritários do Cone Sul.
Recomendo a edição de hoje (13/12) da Folha de São Paulo para indicações preciosas de pesquisa.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Problemas delicados

Há uma bibliografia importante que explica as transições de regimes autoritários para a democracia na América do Sul, com O'Donnel e Schmitter encabeçando-a. Tal literatura oferece boa interpretação do porquê diferentes regimes originaram diferentes transições e diferentes formas de tratar com o passado autoritário. Os grandes modelos são Brasil, Argentina e Chile.
No nosso caso, temos como resultados a Lei de Anistia e a recusa firme de se fazer pesquisas que denunciem o passado da repressão e da tortura.
Penso que isso é um erro e uma desonestidade com as gerações futuras. Recusar a memória equivale a negar a existência do passado, e o passado de repressão e tortura existiu.
É muito desagradável, para não dizer vergonhoso, sermos surpreendidos por revelações vindas de fora, como o pedido de prisão de brasileiros feito pela justiça italiana e as denúncias de bases operativas argentinas no Brasil (durante a Operação Condor), com conhecimento de nossas autoridades.
Se não se quer julgar e condenar os responsáveis pelo regime autoritário, vá lá... respeite-se a Lei de Anistia. Mas pelo menos uma série de audiências de reconciliação (como houve na África do Sul) deve ser levada em conta: reune-se uma assembléia popular, os responsáveis confessam em detalhes o que fizeram e pedem perdão, que é dado imediatamente.
Perdoar é preciso, mas lembrar também.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Ano Novo

Números do feriado de Ano Novo dão conta de 99 mortes por acidentes. Um "sucesso", com quase cem mortes a menos do que o feriado de Natal. Como se uma vida pudesse ser reposta...
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As enchentes ainda não vieram. Será o aquecimento global?
Enquanto isso, as pessoas continuam a se fritar e assar nas praias num filé à milaneza humano: protetor solar pra dar liga, areia e sal pra empanar, o sol pra fazer o resto do serviço.
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Um alívio: acabaram-se as insuportáveis retrospectivas e as previsões de infalíveis videntes. Agora só falta suportarmos a overdose carnavalesca para podermos começar o ano.