sexta-feira, 30 de maio de 2008

Olhando para o passado, tudo faz sentido

Todo o conjunto de eventos aleatórios que faz com que a vida de cada um de nós seja aquilo que ela é, alinha-se segundo um ato de vontade (consciente ou não) para que possamos construir uma linha reta e confortável entre um acontecimento qualquer do passado e nossa vida contemporânea, linha que pavimenta uma explicação racional, aceitável e factível de nossa presente desdita ou felicidade.
É esquecido, porém, precisamente o fato de que a linha reta é fruto de uma escolha. Na História e na vida, nem sempre precisamos passar pelo número dois ao fazermos o trajeto que vai do um ao três.
Crime e castigo (que me perdoe Dostoievski), junto com redenção, estão longe de constituir uma linha do gênero um, dois, três.
Antes do crime há um conjunto radicular de vinhas da ira (que me perdoe Steinbeck) que faz do bandido uma vítima. A curva do rio em que se dá o crime mistura Riobaldo e Diadorim (Seu Rosa, desculpe-me) e nenhuma confissão (Santo Agostinho, valha-me!) abraça a dúvida que se radicaliza (Descartes, compreenda). Nem a cegueira (viva Saramago) redime crime e criminoso. No fim, só há desperdício e humanidade, humanidade demasiado humana (que Nietzsche não leia nem escute).

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Restrição de liberdade

Tenho assistido a alguns programas na TV fechada sobre a vida nas prisões dos EUA. Certamente muita coisa lá está distante da vida de campo de concentração que se observa nas prisões brasileiras: prisioneiros semi-nus e magérrimos, celas super-lotadas, tráfico de drogas escancarado, falta de luz e água, etc.
No entanto, muita coisa também está presente entre prisioneiros limpos, bem alimentados e decentemente vestidos: isolamento, frustração, brutalidade, irremediável descontentamento contra o tipo de mundo que os colocou a ferros e, principalmente, o regresso desses seres humanos à condição de animais.
Não me digam os reacionários, por favor, que os prisioneiros merecem os castigos que lhe são impostos (por fora do sistema) pois, se o caso é executar vingança, é uma bobagem prender alguém, melhor deixar a resolução do caso para a ira e a capacidade de pay back de cada um e, aí, salve-se quem puder.
Não consigo enxergar nenhuma possibilidade de redenção para os prisioneiros... parecem todos condenados ao esquecimento e à barbárie, ao desperdício de suas vidas. Prisões, lá e cá, são como grandes latas de lixo. O problema é que não há um aterro sanitário social onde depositar a escória social. O mau cheiro das penitenciárias nasce nos ascéticos lares da classe média e contamina tudo e todos.
Nada se resolverá nas penitenciárias. O que faremos com essas pessoas? Deixá-las apodrecer não é uma opção.

Tenho firme convicção de que um dia encararemos o encarceramento de seres humanos com o nojo, repulsa e incredulidade com que hoje encaramos o tráfico de escravos, a inquisição, as cruzadas e a peste negra.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Ainda bem que isso não acontece em Itaperuna

Suponhamos que ontem, 13/05/2008, um casal tenha comparecido a um famoso estabelecimento comercial que opera na área de saúde em Itaperuna, conduzindo seu filho de quase 3 anos de idade que necessitava de atendimento. Teria sido recomendada a internação da criança, internação essa que teria sido realizada às 11:00h. Até as 15:00h a única ação que teria sido observada foi a tentativa sofrida e atabalhoada de se coletar sangue da criança. Em torno de 16:00h a criança teria tomado uma dose oral de antibiótico, teria tirado radiografias do pulmão e do seio da face e teria feito nebulização. Perdão, uma correção: a máscara de nebulização teria sido deixada com o pai da criança, e o pai teria feito a nebulização na criança, no quarto, sozinho. No decorrer dessas horas o pai da criança teria - supostamente, já que nada disso tem lugar no mundo real, que é perfeito e maravilhoso - imaginado um raciocínio que julgava lógico: porque submeter a criança ao stress de um hospital, e ao abandono de várias horas sem receber a visita de nenhum, repito, nenhum, médico? Afinal, medicação por via oral e nebulização podem ser feitas em casa e fisioterapia pulmonar (o problema, caro leitor, era bronquite. Desculpem o atraso de informá-los do fato gerador da suposta internação) pode ser agendada por telefone. Após o hipotético raciocínio, o pai da criança teria comunicado às enfermeiras que estava de saída do estabelecimento comercial que opera na área de saúde. A enfermeira (ou atendente) teria afirmado que o pai poderia deixar o estabelecimento, desde que assinasse um termo de responsabilidade. O pai, a essa altura já tomado de alguma irritação, teria afirmado que assinaria qualquer termo de responsabilidade já que, às 17:00h ninguém teria assumido responsabilidade alguma pelo atendimento da criança. O pai sabia, outrossim, que esse "termo de responsabilidade" é um mero pedaço de papel que não gera direito nem obrigação, sendo apenas um instrumento para intimidar os incautos e os que se sentem magnetizados pelo jaleco branco usado por nossos pajés contemporâneos. Isto feito, em pouco tempo teria surgido a enfermeira-chefe.
Surpreendente! Quando se faz uma reclamação veemente alguma coisa acontece! A prestativa enfermeira-chefe teria dito que o médico em pouco tempo lá estaria e, após avaliação, poderia, talvez, liberar a criança.
Eis que teria surgido o médico, às 19:10h. Pelas modestas contas do pai da criança, o pajé teria se dignado a comparecer 8 (oito) horas e 10 (dez) minutos depois da internação. O pajé teria examinado a criança por incontáveis 30 (trinta) segundos e dado alta, assim, de chofre, pacificamente, pachorrentamente.
E assim teria terminado esse caso hipotético, que, felizmente, não acontece na linda, bem organizada e co-responsiva Itaperuna.
Em tempo: ainda bem que o caso hipotético acima descrito teria acontecido com uma família que paga plano de saúde particular. Se a família dependesse do SUS talvez ainda estivesse no saguão de espera em busca de uma senha de atendimento.