Todo o conjunto de eventos aleatórios que faz com que a vida de cada um de nós seja aquilo que ela é, alinha-se segundo um ato de vontade (consciente ou não) para que possamos construir uma linha reta e confortável entre um acontecimento qualquer do passado e nossa vida contemporânea, linha que pavimenta uma explicação racional, aceitável e factível de nossa presente desdita ou felicidade.
É esquecido, porém, precisamente o fato de que a linha reta é fruto de uma escolha. Na História e na vida, nem sempre precisamos passar pelo número dois ao fazermos o trajeto que vai do um ao três.
Crime e castigo (que me perdoe Dostoievski), junto com redenção, estão longe de constituir uma linha do gênero um, dois, três.
Antes do crime há um conjunto radicular de vinhas da ira (que me perdoe Steinbeck) que faz do bandido uma vítima. A curva do rio em que se dá o crime mistura Riobaldo e Diadorim (Seu Rosa, desculpe-me) e nenhuma confissão (Santo Agostinho, valha-me!) abraça a dúvida que se radicaliza (Descartes, compreenda). Nem a cegueira (viva Saramago) redime crime e criminoso. No fim, só há desperdício e humanidade, humanidade demasiado humana (que Nietzsche não leia nem escute).
sexta-feira, 30 de maio de 2008
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2 comentários:
Pois então, é minha primeira visita.
Certa vez assisti a uma versão de Rei Artur e não me esqueço de uma cena em que ele recebia uma lição sobre livre arbítrio. Mitos e ideologias à parte (o cinema adora ambos), temos o dom da escolha, nos dizem, mas é bem certo que podemos escolher e construir apenas dentro das condições que nos são dadas (isso é Marx, né?). Talvez também por isso, e agora faço referência ao post anterior, é que os prisioneiros do nosso sistema carcerário não se reintegrem: não há o que escolher, porque não lhes são dadas opções de escolha nem ferramentas de construção de uma vida nova,ou de um olhar diferente sobre o mundo. Estive num lugar desses fazendo matéria. Não consigo acreditar no sucesso das oficinas de artesanato nem nos projetos de horticultura que ali acontecem, por exemplo.
Se não temos opções de escolha, creio que podemos viver uma crise da vontade.
Se os prisioneiros vivessem em ambientes rurais, uma horticultura faria sucesso; se os prisioneiros vivesse num mundo artesanal, atividades de produção manual fariam sucesso.
Mas, na cidade e no mundo capitalista, penso que se aprendem coisas inúteis na cadeia.
As escolhas são ruins porque as alternativas são piores.Há nítida crise de vontade, como tu dizes.
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