Tenho assistido a alguns programas na TV fechada sobre a vida nas prisões dos EUA. Certamente muita coisa lá está distante da vida de campo de concentração que se observa nas prisões brasileiras: prisioneiros semi-nus e magérrimos, celas super-lotadas, tráfico de drogas escancarado, falta de luz e água, etc.
No entanto, muita coisa também está presente entre prisioneiros limpos, bem alimentados e decentemente vestidos: isolamento, frustração, brutalidade, irremediável descontentamento contra o tipo de mundo que os colocou a ferros e, principalmente, o regresso desses seres humanos à condição de animais.
Não me digam os reacionários, por favor, que os prisioneiros merecem os castigos que lhe são impostos (por fora do sistema) pois, se o caso é executar vingança, é uma bobagem prender alguém, melhor deixar a resolução do caso para a ira e a capacidade de pay back de cada um e, aí, salve-se quem puder.
Não consigo enxergar nenhuma possibilidade de redenção para os prisioneiros... parecem todos condenados ao esquecimento e à barbárie, ao desperdício de suas vidas. Prisões, lá e cá, são como grandes latas de lixo. O problema é que não há um aterro sanitário social onde depositar a escória social. O mau cheiro das penitenciárias nasce nos ascéticos lares da classe média e contamina tudo e todos.
Nada se resolverá nas penitenciárias. O que faremos com essas pessoas? Deixá-las apodrecer não é uma opção.
Tenho firme convicção de que um dia encararemos o encarceramento de seres humanos com o nojo, repulsa e incredulidade com que hoje encaramos o tráfico de escravos, a inquisição, as cruzadas e a peste negra.
quinta-feira, 22 de maio de 2008
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3 comentários:
Professor, independente de uma prisão na China, Guantánamo ou Bangu I, o princípio parece para mim o mesmo: a busca de desintegrar o resto de civilização aos que lá por força da lei ou das circunstâncias estão. A mesma filosofia usada nos campos de concentração contra os judeus, a coisificação, o regresso ao estado de natureza estão presentes nesses presídios.
A sociedade brasileira (cidadãos, mass media, Executivo, Legislativo, Judiciário) finge ignorar as condições de vida das celas em cada recanto do país. Parafraseando Hanna Arendt, é a aceitação pura e simples da “banalização do mal”. Para um político, defender condições mínimas aceitáveis nas cadeias é correr sério risco de ser execrado no próximo pleito. Para o povo, os bandidos merecem o tratamento (vil, bárbaro, desumano, humilhante, persecutório) que as cadeias oferecem. Ministério Público e Judiciário se calam. A imprensa preocupa-se apenas em “repercutir” (que verbo!) os casos escabrosos e sensacionalistas do mundo-cão. Pouca ou nenhuma defesa, com possíveis soluções, de melhores condições dos encarcerados: educação, saúde, treinamento profissional, assistência psicológica e espiritual, lazer. Sim, tudo isso aí. Ou vamos preferir conviver com os marginais, poucos anos depois, disseminando o temor entre os “homens de bem” ?
O tempora, o mores.
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